
Eu sei que Ele é piedoso e misericordioso e, portanto é desnecessário perdi-lhe que o seja. O que eu preciso é sentir, perceber, com meus sentidos, em minha alma, esta piedade e misericórdia, para quem sabe, calar esse grito que me dói o peito...
Até quando?
Até quando eu, que sou o ser mais privilegiado pelo fato de ter sido salva pela graça, que tenho plena consciência dos esgotos da minha carne e da vergonha que ele traz, terei de padecer sob o jugo da lei?
Até quando verei os homens e mulheres bons sobre a face da terra olhando para cruz, desejando-a ardentemente, mas inadvertidamente, retirando-a do monte onde fora conquistada, o Calvário, e transportando-a, juntamente com a dádiva que me trouxe vida – e que me fascina a respeito de Cristo – a GRAÇA, para o Sinai, sob o jugo da LEI, que é boa, mas que NÃO POSSO CUMPRIR ( e a história comprova!!!) apenas pela vontade?
Até quando precisarei sentir na carne a condenação que me foi tirada das costas há no mínimo dois mil anos?
Em nome da santidade, em nome da verdade, em nome do amor, em nome de Jesus, tenho visto e ouvido, paradoxalmente, as mais tristes histórias de consagração ao Deus cristão... e confesso que, talvez, não me importaria com a segunda parte se esta não me atingisse tanto!
São como estacas cravadas em mim dia após dia, um lembrete de quem eu NÃO SOU CAPAZ de ser AOS OLHOS DOS HOMENS...
Mas, e quanto ao que se diz; “Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne.”
A Lei em si, sem nenhuma pitada de Graça é tão perversa e ardil que transforma meus mais alegres e espontâneos sorrisos em escândalo inapropriado, meus mais afetuosos abraços em lascívia, pois me proíbe de ser o que sou com pureza, para não dar ocasião à carne...como se eu NÃO fosse de carne e osso e pele, e cérebro e muito, muitíssimo, coração!
“Onde abundou o pecado, superabundou a graça” Romanos 5:20
Esse é o princípio que me salva, que me traz cura, porque nunca fui o estereótipo de pecadora, mas só Deus conhece o peso da lama tirada dia a após dia do meu coração.
Eu dependo, demais, da graça! Só nela repouso em paz...
Tenho sido extremamente confrontada a respeito desse assunto nesses dias. É como se eu fosse despertada a largar os tempos da meninice em que a Lei me “educava” pela razão de que viria o tempo de andar com as próprias pernas, eu desfrutaria da liberdade ( e benção) da “graça” que a deturpação oriunda das mentes humanas confunde com “libertinagem”.
Ao contrário; o tempo da graça é o tempo de viver tudo aquilo que me é lícito, mas vetar o que não convém! É assumir a responsabilidade de pensar, sentir, ver, ouvir,escolher, discernir, ser-o-que-sou, mediante a nova vida em Cristo e à transformação (interior, e por isso reformadora...) que sua cruz fez e faz. Sim, faz, no presente, pois a cada dia, no tempo da graça, me permito ver como sou ( e isso não é agradável...) e reconheço que careço do Espírito Santo para realizar essa obra em mim! O Espírito, não eu!
Isso é, ao meu ver, graça. Conseqüentemente, nesse caminho estou indo em busca de santificação.
E por isso os cristãos têm tanta dificuldade em aceitar a graça; não podem ter controle sobre ela, pois não provém de nós mesmos; é graça DE GRAÇA!
Assim, preferem recorrer ao velho e seguro recurso judaico: ser zeloso da lei ou da lista, baseada em aparências e esforços próprios, no pode-não-pode, cheio de estereotipias, numa tentativa desesperada de abolir não só as culpas de nossas más ações praticadas, mas a culpa do que faz de nós quem somos na essência; pecadores! Essa transformação produz mudanças de fora para fora, dando a falsa aparência de conformidade com a lei, absolutamente comportamental e baseada no desempenho (uau, fazem “X" dias que não-------; a lista é infinita e cada um pode completá-la com o que quiser; prostituição, pornografia, masturbação, glutonaria, mentira, falsidade, auto - comiseração, etc). Mas, parafraseando um autor que gosto “quando o cidadão se percebe assim, tendo Deus – em Sua misericórdia – permitido que ele caísse em si e, finalmente, olhasse para dentro, então o que acontece é que ele não se reconhece, e se assusta, se escandaliza, se choca, se culpa, se penitencia! Não sabe porque “depois de tanto tempo de evangelho” o que habita seu interior são as mesmas raivas, angústias e escravidões de outrora, mas agora travestidas de ‘santidade exterior’; existem os mesmos bichos vociferando rancores e preconceitos,só que agora legitimados pela interpretação adaptada da Bíblia, que nos dá a entender que somos seres superiores, triunfalistas, uma raça cheia de méritos em ser santa, um povo que se “acha!” Por ser designado de propriedade exclusiva de Deus, sem qualquer compreensão que, em havendo tal eleição,ela é fruto de pura Graça, é anterior a nós mesmos, sendo anterior a qualquer coisa que tenhamos feito ou deixado de fazer, é anterior, inclusive, ao nosso próprio nascimento.”

Ah ( pausa para uma inspiração profunda)!!! Como é terapêutico pra mim escrever...postar é outro esquema ( certamente haverá um intervalo seguro entre idéias concebidas e coragem para publicá-las), mas eu nem consigo lembrar do semblante sombrio e das lágrimas que vertiam dos olhos da Polliana que começou a escrever esse texto. Nem o aperto eu sinto mais!
Acho que o problema maior é constatar que essa minha jornada ( por enquanto, né Jeová?!?rs) é ainda muito solitária! Como qualquer pessoa eu também quero aprovação aceitação, etc, que nem sempre encontro quando preciso. Mas sinto que estou em fase de “crescimento”, fico cheia de dúvidas, confusa, boba. Tropeço nas minhas próprias pernas, pensamentos, sonhos...
Me consola olhar a natureza; me aperceber de que depois das tempestades mais absurdas eu vi arco-íris lindos ( uma vez vi dois se encontrando...lindo!) que a chama do fogo queima, mas purifica o que tem valor. Que talvez muitos cristãos ou budistas, hindus, mulçumanos, judeus, transexuais, assassinos, pobres, ricos, enfim, pessoas como eu, também se sintam assim e que ao lerem esse registro, que pode alcançar lugares inimagináveis, possam repetir o que repito pra mim ainda agora: Deus é bom, haja o que houver, Ele ainda é bom, e não importa o que pensem (nem mesmo eu...) de mim; Ele me ama e vai sempre me amar.
“Senhor, obrigada por nunca desistir de nós e por se esforçar em nos transformar à imagem e semelhança de Seu filho amado, Jesus. Mostra-nos toda deturpação ou desvio da Tua Palavra, concede-nos, a todos, a GRAÇA de servir-Te contemplar-Te eternamente, a começar de agora. Que teu doce Espírito seja o único condutor nesta caminhada, e que por obra e graça Dele eu veja a Ti como verdadeiramente Tu és.
Amém.”